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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Paisagem sublimada







O Douro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. (…) 

Miguel Torga, in Diário XII









quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sou um intruso


Sou pequeno, não sou nada... Sou um intruso, neste delicado reino.
Perante mim, o verde, o azul, os vales, os cumes… está tudo ali! … Contudo nada parece real! 
Perco o meu olhar na descomunal dimensão deste horizonte...
Naquele reino feito de silêncio, escuto o meu coração, numa mistura palpitante, ofegante e extasiado. Reino delicado, este do silêncio, onde o vento e os seus humores variam entre a suave brisa e a tormenta.
Sou pequeno, não sou nada... Sou um intruso, neste delicado reino.
Esmagado por uma grandiosidade exibida neste horizonte, pelo verde irreal dos vales, pelo azul do céu e a imponência da montanha… pela exuberância das encostas floridas.
Sou pequeno, não sou nada... Sou um
 intruso, neste delicado reino.
Este é o delicado reino da majestosa montanha.

Sight







sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Horizonte


(…) 
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.


Fernando Pessoa in “Mensagem”



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quem não Dava a Vida por um Amor?




Quem não Dava a Vida por um Amor?

O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade.
Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando.
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil.
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar.

Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores.  Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.


O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Sugestão musical u  António Pinho Vargas | "Dança dos Pássaros"






domingo, 24 de novembro de 2013

Aquela árvore



Aquela árvore, altiva e imponente,
Irradia a serenidade da idade que não mente.
A pequena ermida recolhe-se naquela companhia secular,
À luz do fim de tarde, que espalha seus tons de fogo pelo ar.

Aqui se cruza o caminho, com o verbo do sonho,
Na lonjura de um horizonte para contemplar.
Fica aqui o verbo acreditar,
Leitura enraizada daquele sonho.

Sigh



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Encantado por natureza.




Intenso momento, encantado por natureza.
O olhar nos olhos tudo dissipa e a voz sussurrante tudo suspende.
A conversa sempre esperada… flui com franqueza.
As coincidências somam-se no olhar e a doçura é traçada pelo sorriso. 
A vida suspensa, no olhar aveludado. 
Ternura transformada num simples abraço,
Intenso momento… desde sempre esperado.

Sight

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Identidade













Identidade

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Conquista






















Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'






domingo, 22 de janeiro de 2012

Vida






Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é muito para ser insignificante.

Vida –Augusto Branco



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Teimoso aventureiro da ilusão


Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 


Miguel Torga, in 'Diário X'