6/04/09 Dia 3:
Baamonte -
Miraz (20Km)
Confirmando as ameaças ao fim do dia anterior, o novo dia amanheceu cinzento e chuvoso!... Foto, para mais tarde recordar…mochilas às costas,
ponchos colocados e outras coisas que tais…e ao caminho!
O destino é
Miraz, uma pequena aldeia com um albergue, com lotação apenas para 14 pessoas, e diga-se o único das redondezas! Não à muitos anos, esta era a “travessia” mais longa e dura do
Camino del Norte. Uma vez que o albergue de
Miraz não existia, obrigando os peregrinos a palmilhar 42Km, através de caminhos de montanha, até ao mosteiro de Sobrado dos
Monxes.
Mas voltemos a
Baamonte, debaixo de uma chuva tímida, ainda visitamos a igreja local, com um calvário e uma mística e enorme árvore oca, com o interior curiosamente talhado com imagens, textos etc. Continuando a seguir os marcos com as vieiras (“
mojón” em galego) …Alguns
kms á frente o caminho atravessa mais uma linda ponte medieval e logo mais à frente, passa, desde à séculos junto da a capela de San
ALberte, datada do séc XIV. Os “
mojon” jacobinos fazem-nos avançar através de uma magnífica e cerrada floresta de carvalhos…indiferentes aos intensos chuveiros, desfrutámos a frescura do aroma que a floresta emanava.
Entregues aos nossos pensamentos, ora caminhávamos acompanhados ou sozinhos, fruto do ritmo de andamento de cada um dos peregrinos. É necessário dar espaço a quem caminha mais rápido e acompanhar quem tem o nosso ritmo, não descuidando quem vem mais atrás!
Cada dia que passa o corpo contabiliza, acumula a
kilometragem já efectuada. Em cada manhã, partimos conscientes das nossas mazelas…e com o recôndito receio de não conseguir completar mais esta etapa…mas também com o indizível e crescente querer chegar a Santiago! Caminhamos assim cada um com o seu fardo. Aos nossos companheiros de Caminho, resta a vigilância e o apoio incondicional.
O sol acabou por se mostrar aqui e acolá…aquecendo um pouco o caminho que persistia em subir e atravessar frondosas e cuidadas florestas através de uma zona pouco povoada. Numa das paragens para tentativa de “abastecimento”, travamos conhecimento com
Pablo pai e
Pablo filho, divertidos peregrinos de Madrid (…dos restantes peregrinos, nem rasto!). Neste bar, ao nosso pedido de uns “
bocadilhos” (sandes), obtivemos como resposta “
comidas aqui no...solo bebida!”…conformados, pedimos um copito, que veio acompanhado de queijo e pão (!). Para maior surpresa, a rodada foi gentilmente oferecida por um dos clientes, com um brinde aos peregrinos Portugueses! Gente simpática…
Sem possibilidade de abastecimento e com
Miraz perto, a nossa “lebre” maratonista Seabra, partiu para assim, assegurar uma noite descansada para os quatro, no pequeno albergue. Algum tempo depois entravamos pois em
Miraz, sob intensos e frios chuveiros de saraiva e por fim o albergue, que nos pareceu fantástico, com um acolhedor fogão a lenha!
O albergue de
Miraz é gerido pela
Confraternity of Saint James, com sede em Londres. O apoio permanente aos peregrinos é assegurado por voluntários, que se revezam.
As dificuldades desta etapa pareciam ter animado a moral dos peregrinos, tal era a animação e convívio, entre os vários grupos de peregrinos, das diversas nacionalidades. Reunidos na acolhedora cozinha, cada grupo foi confeccionando a sua refeição. Destaque para o nosso “
caldinho de couves”, que teve estreia internacional, com os peregrinos Alemães a servirem-se e a "rapar" as suas tigelas!
Já ao cair da noite, chegaram, cansados e encharcados, mais quatro peregrinos, um casal de Madrid e mãe e filho de
Mondonedo. Por este grupo ficamos a saber que os dois Finlandeses tinham desistido e voltado para trás…
Após um pequeno e divertido serão, ao som da chuva que continuava a cair lá fora. Neste lotado dormitório,
aconchegamo-nos dentro dos sacos cama, fazia frio e bastante humidade, contrastando com os anteriores albergues. Depois deste duro, mas belo dia, rapidamente adormecemos, dando início à famosa sinfonia roncadora dos albergues!
Estávamos a 88Km de Santiago!