Mostrar mensagens com a etiqueta Portas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portas. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A pose de ser..







































Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e mais calma.
Pose por pose, a pose de ser o que sou.

    By Fernando Pessoa 




domingo, 2 de março de 2014

Escolher a Felicidade




Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se dão. 
Está-se aqui tão sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo geral no viver, em que a única companhia possível é a daquele Deus a um tempo imanente e transcendente e a dos que neles estão, a de seus santos. Felicidade ou paz nós as construímos ou destruímos: aqui o nosso livre-arbítrio supera a fatalidade do mundo físico e do mundo do proceder e toda a experiência que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a podemos transformar em positiva. Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que é na realidade extremamente difícil e que não atingiremos nunca por nossas próprias forças: exige-se de nós, primacialmente, a humildade; a gratidão pelo que vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exercício; a firmeza e a serenidade do capitão de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme não a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se como uma criança a quem sabe o caminho. De qualquer forma, no fundo de tudo, o que há é um acto de decisão individual, um acto de escolha; posso ser, se tal me agradar, infeliz e inquieto.



Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'







sábado, 20 de fevereiro de 2010

Silêncio dos portais




Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.
Samuel Beckett, in 'Textos para Nada'

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Quem me quiser...





Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente

“Quem me quiser” by Rosa Lobato Faria (1933-2010)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Memórias de um Verão


Retomo, pois, ao ponto de partida
como um presente, o ponto de chegada.
Entre um começo e outro não há nada
Excepto o nada da vida vivida.

Desgaste, corrosão o que de novo
em velho se mudou antes de o ser.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente"

sábado, 28 de março de 2009

Fantasmas do Passado


Rota do Ouro Negro: Fuste -Pedrogão -Rio de Frades (Arouca)

Devido principalmente a conjunturas de mercado, as Minas normalmente encerram em situação difícil, após tempos áureos que todos se orgulham de ter vivido.

Restam então as escombreiras, as máquinas, os edifícios e os "buracos".

Fica a história geológica, a metalogénese, redescoberta em cada palmo de rocha retirado das entranhas da crusta.
Restam também (quando restam!) os arquivos de mapas, cadastros e documentos diversos da empresa que animou a actividade mineira.
Mas fica na mente de todos essa actividade exercida com sacrifício, coragem e determinação na luta contra o filão, extraindo dele o que de importante possuía.

Em Rio de Frades era o volfrâmio que se extraía...

A par deste património histórico-científico-industrial (é assim que deve ser considerado), fica a ferida do fim da actividade e mesmo do desemprego.
O denominado desenvolvimento sustentável, que permita às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem pôr em risco a possibilidade das gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades, não mais se compadece com o abandono do património mineiro no fim da exploração.
A par da reabilitação paisagística, da descontaminação e da resolução dos problemas sociais, surge a preservação do património mineiro (objectos, espaços e memória) como uma nova actividades a desenvolver. Trata-se da emergência das questões do período post-mina.

A preservação de toda a informação sobre o passado do Homem, longínquo e recente, cada vez mais é considerada como um princípio fundamentador e orientador do presente e encarada como um meio potencialmente capaz de fecundar o desenvolvimento cultural e económico dos povos.
Não pode escapar a esta regra a preservação e a valorização futura de tudo o que seja espólio da actividade mineira (varias vezes milenar) que ocorreu no nosso País.

Há em cada Mina encerrada algo invulgar da actividade do homem que deve ser preservado a todo o custo.

E em primeiro lugar para benefício local, contribuindo (num futuro mais ou menos próximo) para ajudar a sarar a tal ferida que naturalmente se abriu com o encerramento da actividade mineira.
E isto porque o carácter particular da actividade mineira e o orgulho que mais ou menos todo o mineiro teve da sua actividade são mais reais do que se possa imaginar.

Esta tarefa é enorme e urgente.
Enorme porque pouco foi feito até ao momento.
Urgente pois cada dia que passa mais património fica irremediavelmente perdido.Nesta tarefa todos podemos participar.


Texto gentilmente cedido pelo autor : o meu bom amigo Alexandre.
Extracto de "Memórias Mineiras: O passado identificado no presente e como referência para o futuro"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Açores: Olhando o Atlântico Amigo












Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.

Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida,
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.


Um Amigo
por Eduardo Bettencourt Pinto

Posted by Picasa

terça-feira, 2 de setembro de 2008