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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Evolução





























Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Sombra...de um sonho.






































Existem pessoas de quem nos lembramos, e outras com quem sonhamos.
Carlos Ruiz Zafón (2001), A sombra do vento

domingo, 24 de novembro de 2013

Aquela árvore



Aquela árvore, altiva e imponente,
Irradia a serenidade da idade que não mente.
A pequena ermida recolhe-se naquela companhia secular,
À luz do fim de tarde, que espalha seus tons de fogo pelo ar.

Aqui se cruza o caminho, com o verbo do sonho,
Na lonjura de um horizonte para contemplar.
Fica aqui o verbo acreditar,
Leitura enraizada daquele sonho.

Sigh



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

É preciso partir!





Terra - 24

António, é preciso partir! 

o moleiro não fia, 
a terra é estéril, 
a arca vazia, 
o gado minga e se fina! 
António, é preciso partir! 
A enxada sem uso, 
o arado enferruja, 
o menino quere o pão; a tua casa é fria! 
É preciso emigrar! 
O vento anda como doido – levará o azeite; 
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; 
e o lar vazio, 
o gado definhando sem pasto, 
a morte e o frio por todo o lado, 
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! 
É preciso embarcar! 
Badalão! Badalão! – o sino 
já entoa a despedida. 
Os juros crescem; 
o dinheiro e o rico não têm coração. 
E as décimas, António? 
Ninguém perdoa – que mais para vender? 
Foi-se o cordão, 
foram-se os brincos, 
foi-se tudo! 
A fome espia o teu lar. 
Para quê lutar com a secura da terra, 
com a indiferença do céu, 
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, 
com tudo! 
Árida, árida a vida! 
António, é preciso partir! 
António partiu. 
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio. 

Fernando Namora, in 'Terra'

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A vida à la minute





































A vida à la minute

Ela, caprichosa, exige imobilidade e toda a atenção do momento.
Não consegue esconder as marcas do tempo passado, mas a eficiência do mecanismo alemão,
com os seus mais de 100 anos, executa o seu metier na perfeição.
Ele, a rondar os 80, habilidoso de mãos, olho vivo… perscruta os turistas em busca de clientela.
Pela mão do pai, cedo se iniciou nesta busca, ao longo de décadas refinou o seu saber.
Viana do Castelo, escadaria de Santa Luzia, máquina e fotógrafo. A sincronia do saber.
Corrupio de gente, famosa ou anónima, ao longo de décadas perfilada perante este par. …Perfilada, rendida, perante este saber reter momentos da vida à la minute.

14 Julho 2013
Sight




O Sr. Manuel Gonçalves nas notícias:



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Encantado por natureza.




Intenso momento, encantado por natureza.
O olhar nos olhos tudo dissipa e a voz sussurrante tudo suspende.
A conversa sempre esperada… flui com franqueza.
As coincidências somam-se no olhar e a doçura é traçada pelo sorriso. 
A vida suspensa, no olhar aveludado. 
Ternura transformada num simples abraço,
Intenso momento… desde sempre esperado.

Sight

domingo, 5 de maio de 2013

A senhora Maria que soma muitos anos


A senhora Maria que soma muitos anos, 
muitos muitos, mas não sabe quantos...
A senhora Maria do sorriso afinado a dois únicos dentes...
de olhar distante, nos muitos muitos anos...



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Identidade













Identidade

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




sexta-feira, 12 de abril de 2013

Formas invisíveis


(...)
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.

Horizonte in Mensagem by Fernando Pessoa




sexta-feira, 1 de março de 2013

O olhar gritou!



























O grupo percorria as ruelas e as calçadas tristes e sós, desse Porto cascata sanjoanina. Eu tinha ficado para trás. Ali sobre a calçada, onde tudo se vende, num inesgotável bric a brac de roupas e quinquilharias.… o seu olhar gritava, o que a cavaqueira confirmou. Fez questão de o dizer que não era para a droga!…
Aquilo tudo, era uma instituição que lhe arranja para vender, fazendo assim um dinheirito, para ajudar!

Perguntei o nome, pedi para tirar o retrato… o sorriso envergonhado acabou por brilhar.
Dia soalheiro e frio de um Fevereiro perdido na escuridão da austeridade.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Busco o futuro




Deixei para trás uma vida. 
Para trás deixei a alma,
Deambulo no momento.
Neste momento feito de escuridão.
Percorro os trilhos da vida,
Busco o futuro desta solidão.


Sight 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Saturação da Servidão




A Saturação da Servidão

Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor.

Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma. Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

...Gente dura, os montanheiros!


Rostos queimados pelo vento,
Olhos que buscam o destino no horizonte longínquo,
…Gente dura, os montanheiros!

Aceitam o sopro gelado da montanha,
Enfrentam o calor do seu abraço nas duras encostas.
Numa quimera inútil e sem fim, palmilham os trilhos!
…Gente dura, os montanheiros!

Gente que escuta a majestade do silêncio, nos grandes espaços,
Gente que explode de alegria com o sucesso conjunto,
Gente que se detêm extasiada na imensidão das paisagens,
Gente pronta a dar a mão ao companheiro,
…Gente dura, os montanheiros!

Aos montanheiros(as) do VAMOS ALI
Rooibos


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

... Afinal nada indiferente!





Na manhã de Reis, indiferente à passagem matinal, indiferente à temperatura gélida da água... as suas mãos mergulhavam e esfregavam a roupa. Sem parar o frenesim de brancura... sorriu e saudou calorosamente. 
...Afinal nada indiferente!


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Conquista






















Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'






domingo, 22 de janeiro de 2012

Vida






Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é muito para ser insignificante.

Vida –Augusto Branco



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Teimoso aventureiro da ilusão


Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 


Miguel Torga, in 'Diário X'







sábado, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Horizonte



Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara.


José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo' (excerto)