sábado, 17 de dezembro de 2011

Natal está em nós!



Dizia-me um amigo, que as melhores prendas que alguma vez podemos receber não podem ser embrulhadas:
...aquele abraço, o beijo desejado, o sorriso de um filho, reatar uma velha amizade, o calor do carinho...
Muitas e boas prendas, porque afinal... o  Natal está em nós!
Um Feliz Natal 

sábado, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Horizonte



Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança... 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara.


José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo' (excerto)






sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Não-Futuro


Este Não-Futuro que a Gente Vive

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… (...) 

Alberto Raposo Pidwell Tavares, in "Entrevista à revista Ler (1989)"

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Pior Crise...



Portugal Está a Atravessar a Pior Crise

Que fazer?  Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: - mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não - pelo menos o Estado não tem: - e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior - e sem cura.

Eça de Queirós, in 'Correspondência (1891)' 

sábado, 15 de outubro de 2011

A Palavra Mágica



A Palavra MágicaCerta palavra dorme na sombra 
de um livro raro. 
Como desencantá-la? 
É a senha da vida 
a senha do mundo. 
Vou procurá-la. 

Vou procurá-la a vida inteira 
no mundo todo. 
Se tarda o encontro, se não a encontro, 
não desanimo, 
procuro sempre. 

Procuro sempre, e minha procura 
ficará sendo 
minha palavra. 

 By Carlos Drummond de Andrade

sábado, 8 de outubro de 2011

Hoje, a montanha foi minha!

Clicar para ampliar 
Ainda a ténue luz do envergonhado dia, mal se fazia sentir e já deixava eu a confortável “hostal”… O ar ainda estava gélido, quando saí, o termómetro do carro marcava 7ºC.
Surpreendi a montanha ainda na sua higiene matinal… as cerradas nuvens, ainda baixas, deixavam um apressado rasto “orvalhado”…aceitei as condições, queria fechar o ciclo pessoal que tinha deixado em aberto no ano anterior, quando não consegui atingir o cume.
Clicar para ampliar 
Apresentei-me equipado a rigor. O vento e a “chuva” fustigaram o rosto durante algum tempo. Aos poucos fui percorrendo o trilho sinuoso que me levava ao vale encantado e por sua vez ao pico que era o meu objectivo nesse dia. O pequeno GPS indicava a direcção a seguir e que eu não podia confirmar “à vista”…
Graças ao poder do “astro rei”, a visibilidade foi melhorando, com a subida do tecto de nuvens e mesmo provocando o seu afastamento. Depois de algumas horas no trilho, apenas me cruzei com um pequeno veado, vaquinhas ensonadas e pássaros atrevidos que teimavam em fugir no último instante! A paisagem foi ganhando cor, os verdes nos vales e as encostas semi-cobertas com urzes. Aqui e ali uma pitada de neve tardia, numa ou noutra encosta.
Clicar para ampliar 
O dia foi avançando, o vale encantado foi alcançado, transpostos os inúmeros ribeiros. O trilho por vezes transformado em lamaçal ou em traiçoeiros campos de erva alta…por onde correm pequenos regatos escondidos! Envergonhada, a montanha foi-se mostrando cada vez mais, as nuvens foram para longe e pareciam agora algodão branco em contraste com o céu azul! A ascensão final teve o seu início sob um sol radioso e sem vento… enfim, o convite final.
Clicar para ampliar 
Durante a ascensão paro inúmeras vezes para recuperar o fôlego… coisas da idade! Aprecio então o que a montanha me proporciona, uma vista paradisíaca, o majestoso silêncio (…só interrompido pela batida forte do meu coração!) … um mundo de tranquilidade. Atingido o cume, ainda me foi permitido desfrutar o frugal almoço, neste local sobranceiro a todo o horizonte. Tempo e visibilidade excelente…ausência completa de vento, acontecimento raro nestas altas paragens. Calmia total.
As nuvens no horizonte (…e o relógio) ditaram o regresso… descida cuidadosa e de novo a travessia do vale encantado. As nuvens que se adensavam atrás de mim, cuidados e cautelas (…e as minhas pernas!) recomendaram uma alteração da rota planeada, optando pelo mesmo trilho para regressar, em vez de contornar a barragem lá longe.
Clicar para ampliar 
Subo agora a encosta que tinha descido…não tinha reparado neste desnível! O vento volta a assobiar, felizmente as nuvens de borrasca ainda estão lá longe. Aos poucos, passada atrás de passada, o GPS diz-me que o carro está mais próximo…desta vez consigo confirmar com o relevo da zona, cada vez mais familiar. Finalmente a viatura é avistada…
Cerca de 10h depois de ter partido eis que regresso, dou por mim a constatar que não avistei ninguém… um dia memorável que a montanha me deu a desfrutar a sós!
Discípulo da montanha, guardarei este memorável dia num recanto especial da minha memória vivida. 

Hoje, a montanha foi minha!




Clicar para ampliar 














sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Recomeçar



Recomeça....

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças

Recomeçar by Miguel Torga

sábado, 5 de março de 2011

O SightXperience encerra temporáriamente...
As minhas desculpas e obrigado pela visita!

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A passagem...

Alguém tinha acabado de abrir a porta do quintal e os faustosos galináceos exibiam-se perante os forasteiros. Mais à frente, alguém vindo da escuridão da “loja”, dispunha cuidadosamente ao sol… umas tantas espigas de milho. Foto aqui foto acolá, bom dia aqui e acolá! Dou comigo na penumbra da “loja”, rodeado de pipas e de copo na mão… o meio-dia ainda não chegou, mas uma recusa, não é bem vista nestas bandas! O meu anfitrião insistia para o acompanhar numa e mais noutra prova! … Sorte de outros companheiros de aventuras, que se fizeram aos copos…

O grupo progride serra acima, o céu manchado de branco é enganador. A paisagem pedregosa é rasgada aqui e ali por cascatas que derramam água com toda a intensidade, avistam-se pastos forrados com tapetes verdes… estamos para cá do Marão.

Recolhemos imagens e sons que acolhemos na nossa memória, para mais tarde a elas recorrer… em pleno buliço da cidade! Já no regresso da nossa jornada, voltamos a cruzar as ruelas da aldeia. Fim de tarde, o gado recolhe e cumprem-se velhas rotinas aproveitando o sol e a “passagem” pois claro!

Vida rural, dura e rotineira, celebrada com generosidade. Marcas vincadas nos gestos e rostos. Depressa chegará o dia em que os improvisados bancos ficarão vazios… sem ninguém para ver a “passagem”!

Resistirá o nosso testemunho?




domingo, 6 de fevereiro de 2011

..."Eu já o tinha marcado!"


















O pequeno grupo garrido tinha dispersado em busca de imagens para capturar. Eu tinha ficado ali, encostado, depois da conversa de ocasião com aquela mulher que carregava o seu luto e as compras da loja...
Jocosamente, alguém me dizia, vem aí mais uma das tuas velhinhas!...E vinha… caminhava lentamente na nossa direcção, amparada pela bengala e com um braçado de lenha.
Naquele fim de tarde enregelado recolhia a casa, semblante sorridente, ansiava por falar... mal a distância o permitiu. De onde vínhamos… tinha visto a irmã a falar connosco! Era de poucas falas, a irmã, “por causa da viuvez”… esclareceu!
Peço para tirar umas fotos. “Eu já o tinha marcado, lá em cima!” respondeu  anuindo!…




























domingo, 23 de janeiro de 2011

Não vale a pena senhor...

 




Dezembro de um ano qualquer, o nosso pequeno grupo de forasteiros invadira a aldeia, com as suas cores garridas. As máquinas fotográficas apontam a tudo…

Caminhava de olhos cravados no chão… esgueirava-se do grupo garrido.
Levava consigo as parcas compras feitas na “venda” local, as suas negras vestes pesavam! 
O nome ficou perdido na memória, mas não o momento. 
Entabulei conversa de ocasião, respondemos mutuamente a curiosidades circunstanciais, de onde e ao que vínhamos etc. 

Arrisquei e pedi uma fotografia… acedeu com pudor, compondo o lenço disse:
 "Oh senhor! … não vale a pena!"   e
ncarando de frente a câmara, compôs o lenço, e sorriu-me na sua pesada viuvez.
Penso comigo… se valeu! 
Parque Natural Serra Alvão, Agarez





sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ângulos...





Não é o ângulo recto que me atraí
Nem a linha recta, dura, inflexível,
Criada pelo homem.
O que me atrai é a linha curva e sensual,
A curva que encontro nas montanhas
Do meu país,
No curso do mar,
No corpo da mulher
Preferida.
De curvas feito todo o universo,
O universo curvo de Einstein

Óscar Niemeyer (arquitecto e poeta)
...Fotos by Sight

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O livro do Outono


Um livro de poemas
é o outono morto: 
os versos são as folhas 
negras em terras brancas, 

e a voz que os lê 
é o sopro do vento 
que lhes mete nos peitos 
— entranháveis distâncias. — 

O poeta é uma árvore 
com frutos de tristeza 
e com folhas murchadas
de chorar o que ama. 

O poeta é o médium 
da Natureza-mãe 
que explica sua grandeza 
por meio das palavras. 

O poeta compreende 
todo o incompreensível, 
e as coisas que se odeiam, 
ele, amigas as chama.

Sabe ele que as veredas 
são todas impossíveis 
e por isso de noite
vai por elas com calma.

Garcia Lorca in "Este é o Prólogo" (excerto)





domingo, 7 de novembro de 2010

Diário de um Caminho: Dia 8 o último dia…


Outeiro (Vedra) - Santiago de Compostela
Último dia…

Finalmente o tão aguardado dia chega, Santiago tão próximo, última etapa do nosso Caminho… Tantas adversidades ultrapassadas e a última noite não foi excepção.
Apesar do alegre convívio entre dois grupos distintos, portugueses e espanhóis, a última noite para mim foi um desespero; o frio constante e o banco da igreja demasiado estreito e duro para se conseguir descansar, depois de uma etapa de 32 km. Devo ter dormido 2 a 3 horas, se tanto. Para além do cansaço acumulado, as dores de costas começaram a aparecer, nada que a motivação desta ser a última etapa e uma boa dose de Voltaren, não dessem conta do recado!
Bolhas protegidas, pés ligados, mochilas às costas, mazelas à parte… cá vamos nós…
O pequeno-almoço foi mais um momento de partilha. Reunimos tudo o que tinha sobrado e o estômago lá foi enganado…. Só queria aquecer de alguma maneira e um café com “leche mui calientito” era uma miragem!...

A partida foi feita em silêncio, não me recordo de termos tirado a foto da praxe. O intenso convívio de 24 horas associado a algum nervosismo ditaram pequenas clivagens no seio do nosso grupo. O ambiente pesado, combinava com a madrugada, pois o sol tardava em aparecer. Os primeiros kms foram quase sempre em alcatrão, o que acontece normalmente quando uma cidade está perto, assim como o frenesim das pessoas nas ruas. Muito cedo, entramos num café “beira de estrada”, onde mais uma vez os galegos demonstraram a sua hospitalidade para com os peregrinos, ofereceram bolos e biscoitos para acompanhar as bebidas quentes, um gesto muito simpático e de louvar. Até uma brigada de trânsito, que também tomava o pequeno-almoço, se mostrou jovial e simpática para connosco. Penso que antigamente deveria ser mais frequente este tipo de hospitalidade sem pedir nada em troca, no entanto constato cada vez mais que os Caminhos de Santiago começam a ser uma importante fonte de turismo na Galiza.

Mochilas às costas, mais uma vez e lá partimos para a intempérie, uma vez que a chuva não nos dá tréguas. Esperam-nos uns longos 13 km, cinzentos e cheios de neblinas, o cansaço acumulado ao longo de uma semana apodera-se lentamente de mim. Maldito alcatrão!

Deixo-me ficar para trás, faço a minha retrospectiva desta grande lição de Vida. Conheci pessoas extraordinárias, quer pela sua sabedoria, quer pelo humor, compreendi a palavra partilha, a força do acreditar, a união, a desilusão, o desespero, a alegria e talvez o mais importante o Silêncio.
O “grande silêncio” associado a tão belas paisagens nos vários momentos do Caminho, reflecte-se em agora em mim num estado de espírito tão essencial e tão necessário como a azáfama do nosso quotidiano.

O último dia, foi para mim, sem dúvida o mais duro; as dores nas pontas dos dedos dos pés a baterem contra a bota, durante as descidas em alcatrão, o ambiente carregado e o constante mau tempo, fez com que o percurso, apesar de curto, fosse penoso e custasse tanto a percorrer. Sabia que estava perto do nosso destino, as zonas industriais não enganam. Aos poucos começamos a cruzar-nos com outros peregrinos que vinham de outros destinos. Um misto de alegria e tristeza ao mesmo tempo apodera-se de mim, está a acabar…

A nossa vida paralela e rotineira está à nossa espera, missão cumprida, que alegria: Santiago à vista!!! Um dos momentos que me marcaram, por entre nuvens carregadas, foi vislumbrar as torres da Catedral de Santiago, como se de uma visão se tratasse. Toda a dor é esquecida, todo o desconforto posto de lado, está quase!! Que orgulho, chegamos todos juntos a Santiago, uma cidade que guardaremos para sempre no nosso coração, tantas vezes visitada mas agora, também compreendida. O nosso momento, o meu momento, foi uma conquista algo inesquecível, uma primeira vez.

De sorriso rasgado e com palavras de ânimo de outros peregrinos, lá entramos nas movimentadas ruas de Santiago, o destino final o km 0. Situado no centro da praça Obradoiro, mesmo em frente à Catedral de Santiago. Calcorrear aquelas ruas medievais, tantas vezes a porta de chegada de peregrinos ao longo de séculos, fez-me sentir pequenina e deixo-me envolver por todo o frenesim. No meio dos turistas que nos olham espantados, entre os companheiros de viagem a cumplicidade é muita. Avisto a Catedral com toda a sua plenitude, gelo por uns instantes antes de rejubilar de alegria. Misturamo-nos nessa continua descarga de adrenalina, que é a chegada dos peregrinos à praça. O momento que tanto aguardávamos ali estava ele! Sereno e ao mesmo rejubilante!

Sento-me no chão no meio da praça, encostada à minha companheira de viagem, a mochila, que tantas vezes me pareceu pesada e de repente torna-se tão leve que não me consigo separar dela! Custa-me tirá-la das costas, já faz parte de mim e sem ela sinto-me incompleta.
Contemplo de frente a Catedral e por momentos ignoro toda a gente à minha volta. Estou sozinha, guardo esse momento inexplicável só para mim, e que sem dúvida me vai acompanhar pela minha vida fora; uma lição de vida, e de crescimento pessoal. Não consigo evitar as lágrimas (espero que ninguém se aperceba), agora entendo o Caminho de Santiago, não é mais do que uma metáfora da nossa Vida!

Caminhos e decisões que tomamos seguindo este ou aquele ensinamento, aqui representados pelas vieiras e setas. Caminhos difíceis, pequenas conquistas, que não são mais do que as várias etapas na nossa vida, boas escolhas, más escolhas, privações, choro, alegria, amor. Pessoas que entram e saem da nossa vida são representadas por quem nos cruzamos ao longo do caminho, e por fim, após percorrer o Labirinto da nossa Vida, o Destino Final, seja ele religioso, pessoal, místico ou simples prazer. O nosso destino pode estar traçado mas as nossas escolhas que nos levam a enveredar por determinados caminhos em detrimento de outros fazem com que a nossa Vida seja tão única.

Vou voltar, com toda a certeza, tenho tantas perguntas sem resposta, tantas pessoas por conhecer, tantos trilhos para calcorrear e tanta curiosidade de saber o que está mais além.
Sim regressarei, um dia….

Texto by Lai
Fotos by Sight