sexta-feira, 21 de março de 2014

sexta-feira, 14 de março de 2014

Tens sol.

































Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.


Ricardo Reis, in "Odes"

Sugestão musical u Sting - Shape Of My Heart






sexta-feira, 7 de março de 2014

Muito interessante....mesmo!



A Mulher é mesmo interessante,
mesmo zangada é linda,
mesmo alegre, chora, 
mesmo tímida, comemora,
mesmo apaixonada, ignora
....e mesmo frágil é poderosa!!
Autor desconhecido





domingo, 2 de março de 2014

Escolher a Felicidade




Nem paz nem felicidade se recebem dos outros nem aos outros se dão. 
Está-se aqui tão sozinho como no nascer e no morrer; como de um modo geral no viver, em que a única companhia possível é a daquele Deus a um tempo imanente e transcendente e a dos que neles estão, a de seus santos. Felicidade ou paz nós as construímos ou destruímos: aqui o nosso livre-arbítrio supera a fatalidade do mundo físico e do mundo do proceder e toda a experiência que vamos fazendo, negativa mesmo para todos, a podemos transformar em positiva. Para o fazermos, se exige pouco, mas um pouco que é na realidade extremamente difícil e que não atingiremos nunca por nossas próprias forças: exige-se de nós, primacialmente, a humildade; a gratidão pelo que vem, como a de um ginasta pelo seu aparelho de exercício; a firmeza e a serenidade do capitão de navio em sua ponte, sabendo que o ata ao leme não a vontade de um rei, como nos Descobrimentos, mas a vontade de um rei de reis, revelada num servidor de servidores; finalmente, o entregar-se como uma criança a quem sabe o caminho. De qualquer forma, no fundo de tudo, o que há é um acto de decisão individual, um acto de escolha; posso ser, se tal me agradar, infeliz e inquieto.



Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'







sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Horizonte


(…) 
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte
Os beijos merecidos da Verdade.


Fernando Pessoa in “Mensagem”



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quem não Dava a Vida por um Amor?




Quem não Dava a Vida por um Amor?

O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade.
Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando.
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil.
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar.

Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores.  Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.


O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar?

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Sugestão musical u  António Pinho Vargas | "Dança dos Pássaros"






sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Vou-me afastando


(...)

É só poeira
Da caminhada que eu já fiz
Vou-me afastando
Do sonho aonde eu fui feliz
Ando perdido
Como um amante sem lugar
A vida acaba mesmo sem antes começar
Aqui





sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Luz no cimo





























Bate a luz no cimo
Da montanha, vê...
Sem querer eu cismo
Mas não sei em quê....

Não sei que perdi
Ou que não achei...
Vida que vivi,
Que mal eu a amei !...

Hoje quero tanto
Que o não posso ter,
De manhã há o pranto
E ao anoitecer...

Tomara eu ter jeito
Para ser feliz...
Como o mundo é estreito,
E o pouco que eu quis !

Vai morrendo a luz
No alto da montanha...
Como um rio a fluir
A minha alma banha,

Mas não me acarinha,
Não me acalma nada...
Pobre criancinha
Perdida na estrada !...

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Evolução





























Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A Sombra...de um sonho.






































Existem pessoas de quem nos lembramos, e outras com quem sonhamos.
Carlos Ruiz Zafón (2001), A sombra do vento

domingo, 24 de novembro de 2013

Aquela árvore



Aquela árvore, altiva e imponente,
Irradia a serenidade da idade que não mente.
A pequena ermida recolhe-se naquela companhia secular,
À luz do fim de tarde, que espalha seus tons de fogo pelo ar.

Aqui se cruza o caminho, com o verbo do sonho,
Na lonjura de um horizonte para contemplar.
Fica aqui o verbo acreditar,
Leitura enraizada daquele sonho.

Sigh



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

É preciso partir!





Terra - 24

António, é preciso partir! 

o moleiro não fia, 
a terra é estéril, 
a arca vazia, 
o gado minga e se fina! 
António, é preciso partir! 
A enxada sem uso, 
o arado enferruja, 
o menino quere o pão; a tua casa é fria! 
É preciso emigrar! 
O vento anda como doido – levará o azeite; 
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; 
e o lar vazio, 
o gado definhando sem pasto, 
a morte e o frio por todo o lado, 
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! 
É preciso embarcar! 
Badalão! Badalão! – o sino 
já entoa a despedida. 
Os juros crescem; 
o dinheiro e o rico não têm coração. 
E as décimas, António? 
Ninguém perdoa – que mais para vender? 
Foi-se o cordão, 
foram-se os brincos, 
foi-se tudo! 
A fome espia o teu lar. 
Para quê lutar com a secura da terra, 
com a indiferença do céu, 
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, 
com tudo! 
Árida, árida a vida! 
António, é preciso partir! 
António partiu. 
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio. 

Fernando Namora, in 'Terra'

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A vida à la minute





































A vida à la minute

Ela, caprichosa, exige imobilidade e toda a atenção do momento.
Não consegue esconder as marcas do tempo passado, mas a eficiência do mecanismo alemão,
com os seus mais de 100 anos, executa o seu metier na perfeição.
Ele, a rondar os 80, habilidoso de mãos, olho vivo… perscruta os turistas em busca de clientela.
Pela mão do pai, cedo se iniciou nesta busca, ao longo de décadas refinou o seu saber.
Viana do Castelo, escadaria de Santa Luzia, máquina e fotógrafo. A sincronia do saber.
Corrupio de gente, famosa ou anónima, ao longo de décadas perfilada perante este par. …Perfilada, rendida, perante este saber reter momentos da vida à la minute.

14 Julho 2013
Sight




O Sr. Manuel Gonçalves nas notícias:



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Encantado por natureza.




Intenso momento, encantado por natureza.
O olhar nos olhos tudo dissipa e a voz sussurrante tudo suspende.
A conversa sempre esperada… flui com franqueza.
As coincidências somam-se no olhar e a doçura é traçada pelo sorriso. 
A vida suspensa, no olhar aveludado. 
Ternura transformada num simples abraço,
Intenso momento… desde sempre esperado.

Sight

domingo, 5 de maio de 2013

A senhora Maria que soma muitos anos


A senhora Maria que soma muitos anos, 
muitos muitos, mas não sabe quantos...
A senhora Maria do sorriso afinado a dois únicos dentes...
de olhar distante, nos muitos muitos anos...



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Identidade













Identidade

Preciso ser um outro 
para ser eu mesmo 

Sou grão de rocha 
Sou o vento que a desgasta 

Sou pólen sem insecto 

Sou areia sustentando 
o sexo das árvores 

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado 
ansiando a esperança do futuro 

No mundo que combato morro 
no mundo por que luto nasço 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




sexta-feira, 12 de abril de 2013

Formas invisíveis


(...)
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.

Horizonte in Mensagem by Fernando Pessoa




sexta-feira, 5 de abril de 2013

Cidade cega




...
Cidade cega. Todos os dias, 
A nossa vida fica mais breve, 
As nossas mãos ficam mais frias... 
Todos os dias, todos os dias, 
A morte paga, paga a quem deve. 
...

Pedro Homem de Mello, in "Grande, Grande Era a Cidade..."




sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma cidade...



 Uma cidade pode ser 
apenas um rio, uma torre, uma rua 
com varandas de sal e gerânios 
de espuma. Pode 
ser um cacho 
de uvas numa garrafa, uma bandeira 
azul e branca, um cavalo 
de crinas de algodão, esporas 
de água e flancos 
de granito. 
                      Uma cidade 
pode ser o nome 
dum país, dum cais, um porto, um barco 
de andorinhas e gaivotas 
ancoradas 
na areia. E pode 
ser 
um arco-íris à janela, um manjerico 
de sol, um beijo 
de magnólias 
ao crepúsculo, um balão 
aceso 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"




sexta-feira, 1 de março de 2013

O olhar gritou!



























O grupo percorria as ruelas e as calçadas tristes e sós, desse Porto cascata sanjoanina. Eu tinha ficado para trás. Ali sobre a calçada, onde tudo se vende, num inesgotável bric a brac de roupas e quinquilharias.… o seu olhar gritava, o que a cavaqueira confirmou. Fez questão de o dizer que não era para a droga!…
Aquilo tudo, era uma instituição que lhe arranja para vender, fazendo assim um dinheirito, para ajudar!

Perguntei o nome, pedi para tirar o retrato… o sorriso envergonhado acabou por brilhar.
Dia soalheiro e frio de um Fevereiro perdido na escuridão da austeridade.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Busco o futuro




Deixei para trás uma vida. 
Para trás deixei a alma,
Deambulo no momento.
Neste momento feito de escuridão.
Percorro os trilhos da vida,
Busco o futuro desta solidão.


Sight 

sábado, 2 de fevereiro de 2013

A Saturação da Servidão




A Saturação da Servidão

Hoje estão em causa, não as paradas, que é tudo em que as multidões são adestradas, ou a guerra, a que se convidam; está em causa toda uma dinâmica nova para criar o habitat duma humanidade que atingiu a saturação da servidão, depois de há milénios ter dado o passo da reflexão. As pessoas interrogam-se em tudo quanto vivem. A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor.

Um grande terror sucede à saturação da servidão. Receamos essa motivação nova que é a nossa vontade, a nossa fé sem justificação a não ser estarmos presentes num imenso espaço que não é povoado pela mitologia de coisa alguma. Somos novos na nossa velha aspiração: a liberdade é doce para os que a esperam; quando ela for um facto para toda a gente, damos-lhe outro nome.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

...Gente dura, os montanheiros!


Rostos queimados pelo vento,
Olhos que buscam o destino no horizonte longínquo,
…Gente dura, os montanheiros!

Aceitam o sopro gelado da montanha,
Enfrentam o calor do seu abraço nas duras encostas.
Numa quimera inútil e sem fim, palmilham os trilhos!
…Gente dura, os montanheiros!

Gente que escuta a majestade do silêncio, nos grandes espaços,
Gente que explode de alegria com o sucesso conjunto,
Gente que se detêm extasiada na imensidão das paisagens,
Gente pronta a dar a mão ao companheiro,
…Gente dura, os montanheiros!

Aos montanheiros(as) do VAMOS ALI
Rooibos


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

... Afinal nada indiferente!





Na manhã de Reis, indiferente à passagem matinal, indiferente à temperatura gélida da água... as suas mãos mergulhavam e esfregavam a roupa. Sem parar o frenesim de brancura... sorriu e saudou calorosamente. 
...Afinal nada indiferente!


quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Povo formiga


 

Povo formiga.

Um povo com existência de formiga, que despreza o tempo
o do relógio e o do sol.
Regula a sua rotina diária pela luz solar e
a cadência das estações, regulam os ciclos anuais das sementeiras e das colheitas.
Azáfama diária… os animais dependentes assim o ditam.
Não existe o tempo dos anos que pesam, apenas o tempo de fazer!
De geração em geração, este é o tempo que o povo formiga transmite aos seus.
Uma existência de formiga, feita de pequenos grandes feitos.
Povo envelhecido, esquecido e esmagado... até!
Povo arredado do tempo que corre e voa... até!

 
 
Posted by Picasa

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Conquista






















Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 

Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'






domingo, 22 de janeiro de 2012

Vida






Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é muito para ser insignificante.

Vida –Augusto Branco



sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Teimoso aventureiro da ilusão


Teimoso aventureiro da ilusão, 
Surdo às razões do tempo e da fortuna, 
Achar sem nunca achar o que procuro, 
Exilado 
Na gávea do futuro, 
Mais alta ainda do que no passado. 


Miguel Torga, in 'Diário X'